Liderança

Como executivos constroem times, desenvolvem outros líderes e exercem influência além da hierarquia.

Liderança executiva não é promoção. É uma mudança de responsabilidade — e nem todo profissional brilhante está disposto a fazer essa troca.

Denis Tassitano largou uma conta que sabia, desde cedo, que não ia ganhar. Foi a escolha que ele aponta como um dos momentos em que parou de só vender e começou a liderar.

É exatamente esse tipo de escolha que separa quem está executando de quem está liderando.

Liderança executiva não vem com o cargo. Vem antes — ou não vem nunca.

Cruzar a linha da arrebentação

Tem uma expressão que ficou comigo: cruzar a linha da arrebentação. É o momento em que o profissional para de enxergar só a sua área e começa a ver a empresa como um sistema.

Perguntei ao Denis Tassitano o que diferencia o profissional excepcional de quem já está no nível executivo. A resposta dele começa por entender a empresa inteira — o vendedor costuma ficar preso ao próprio pedaço, sem saber por que não pode dar desconto, por que não pode isso, por que não pode aquilo.

"Quando você começa a entender toda a cadeia de comando", ele disse, "é aí que você tá preparado para subir na cadeia de comando."

Parece óbvio. Mas a maioria dos bons profissionais passa anos sem cruzar essa linha — não por falta de competência, mas por falta de interesse.

É mais confortável ser excepcional dentro do perímetro conhecido do que se responsabilizar pelo que acontece fora dele.

Isso me leva ao ponto que a Juliana Oliveira, CEO da Oliver Press, levou anos para internalizar: CEO e empreendedor são dois papéis distintos. Ela construiu uma agência, chegou a 60 pessoas, ganhou prêmios — e por muito tempo operava no modo empreendedora, não no modo CEO. A virada foi entender que cultura organizacional não é consequência de liderança. É o próprio exercício da liderança executiva.

O que a técnica não resolve

Renato Chaves passou anos como especialista técnico em SEO, CRM e growth antes de assumir gestão de pessoas. A transição revelou algo que ele não aprendeu em nenhum curso: "Uma coisa que eu sofri lá atrás era a questão de visibilidade." Renato havia trabalhado anos sem se colocar em evidência — focado nas entregas, invisível nas conversas que decidiam promoções.

Quando virou gestor, fez o oposto com o time: distribuiu mérito, colocou os liderados nas reuniões com diretoria, deu crédito público pelo que foi entregue.

Definiu liderança em uma palavra — honestidade. Não como princípio ético abstrato, mas como prática operacional: ser claro sobre expectativas, sobre o que funciona e o que não funciona, sobre quando o profissional deve ir para outro lugar mesmo que isso seja inconveniente para você.

Liderar pelo exemplo, antes da autoridade formal

Carlos Alexandre, gerente de operações do Santander, aprendeu isso aos 24 anos, quando assumiu pela primeira vez uma equipe no mercado financeiro — com liderados que tinham 20 e 30 anos de carreira.

Sua estratégia: arregaçar as mangas e executar o trabalho braçal junto. Não para provar que sabia mais. Para mostrar que estava disposto a se responsabilizar pelo mesmo risco que cobrava do time.

Liderança pelo exemplo não é retórica — é o único idioma que funciona quando a credibilidade técnica ainda não está estabelecida.

O erro que custa mais caro

A Juliana tem um arrependimento claro: demorou para tomar decisões difíceis sobre pessoas. Sabia que precisava agir, esperou, e o custo recaiu sobre o negócio. "Não demore para tomar decisões", ela diz hoje. "Seja rápido — porque lá na frente isso impacta o negócio."

Esse é o fracasso que mais aparece em conversas de liderança executiva: não a decisão errada, mas a decisão postergada. E a postergação quase sempre vem embalada em empatia — eu vou dar mais uma chance, o contexto é difícil, ela ainda pode virar.

Às vezes é empatia de verdade. Às vezes é evitar o desconforto de uma conversa difícil. Liderança executiva exige saber a diferença.

O padrão que observo ao longo de anos mentorando executivos é consistente: líderes que tratam decisões sobre pessoas com o mesmo rigor analítico que aplicam a decisões de negócio. Não com crueldade — com clareza.

Liderança executiva é a disposição de se responsabilizar pelo que acontece quando você não está olhando. Qual decisão você tem postergado porque o custo de tomar é mais visível que o custo de esperar?

Temas vizinhos: liderar começa por saber se desenvolver — veja desenvolvimento profissional. As decisões difíceis deste tema também cruzam propósito profissional e transição de carreira.

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Perguntas Frequentes

O que é liderança executiva e como ela se diferencia de gestão operacional?
Liderança executiva é a disposição de se responsabilizar pelo que acontece fora do seu perímetro — não apenas pela sua área, mas pelo resultado do sistema como um todo. Denis Tassitano, que soma mais de 20 anos em vendas de tecnologia e chegou a vice-presidente comercial da SAP, resume assim: quando o profissional começa a enxergar toda a cadeia de comando, está pronto para subir nela. Gestão operacional exige execução dentro do perímetro conhecido; liderança executiva exige assumir o que está além dele.
Como desenvolver o pipeline de liderança em uma organização?
Pipeline de liderança é o processo de identificar e preparar, de forma contínua, quem vai ocupar as próximas posições de liderança — antes que a vaga apareça. O pipeline de liderança se constrói identificando quem já cruzou a linha da arrebentação — o momento em que o profissional para de ver só a própria área e começa a entender a empresa como sistema. Carlos Alexandre fez isso aos 24 anos, liderando equipes com 20 e 30 anos de carreira no mercado financeiro: em vez de afirmar autoridade técnica, executou o trabalho braçal junto ao time, construindo credibilidade pelo exemplo antes de construí-la pelo cargo.
Qual é o erro mais caro que líderes cometem na gestão de pessoas?
Postergar decisões sobre pessoas é o erro que aparece com mais consistência em trajetórias de liderança executiva. Juliana Oliveira, que levou a Oliver Press a 60 profissionais, tem um arrependimento claro: demorou para agir em situações em que já sabia o que precisava ser feito. A postergação raramente é falta de clareza — quase sempre é evitar o desconforto de uma conversa difícil. O custo recai sobre o negócio, não sobre quem esperou.
O que a experiência de líderes comerciais de alta performance ensina sobre tomada de decisão?
Denis Tassitano, que soma mais de 20 anos em vendas de tecnologia e ocupa o cargo de vice-presidente comercial da SAP, aponta que o diferencial de líderes comerciais não está nas contas que fecham, mas nas que abandonam a tempo. Ele largou uma conta que sabia que não ia ganhar — porque isso liberou espaço para as contas em que havia chance real de vitória. Liderança comercial de alta performance exige o mesmo rigor analítico para dizer não que para dizer sim.
Qual a diferença entre um especialista técnico e um líder de pessoas na prática?
Renato Chaves passou anos como especialista em SEO, CRM e growth — focado nas entregas, invisível nas conversas que decidiam promoções. Quando assumiu gestão de pessoas, inverteu a lógica: distribuiu mérito, colocou os liderados nas reuniões com diretoria e deu crédito público pelo que foi entregue. A diferença prática não está na competência técnica, mas em para quem essa competência aponta — para si mesmo ou para o time.