Ep. 351 minDesenvolvimento Profissional
Competências, planos de carreira e a diferença entre crescer por acaso e crescer com método.
Especialista ou gestor não é uma escolha binária. É uma tensão que precisa ser administrada — e os melhores profissionais aprenderam a fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Martin Luther levou dois, três anos dentro do JP Morgan para perceber que o caminho de quase dez anos entre trainee e coordenador não era o dele.
Não por falta de competência técnica — ele dominava o que precisava. O problema era outro: o trabalho o isolava, e ele queria exatamente o oposto.
Quando identificou isso, não esperou o mercado decidir por ele. Foi fazer intercâmbio, mudou de rota, e hoje lidera a BITi9, com dez anos de história.
Essa decisão não foi sobre abandonar o técnico. Foi sobre reconhecer o que o mercado estava enxergando nele antes mesmo que ele enxergasse em si mesmo.
Desenvolvimento de competências na liderança começa aí: não num curso, não num MBA, mas numa pergunta honesta sobre onde você gera mais valor — e se você está disposto a ampliar esse lugar.
A sanfona que ninguém avisa que existe
Quando Martin assumiu sua primeira coordenação na Natura, ele descobriu algo que nenhum livro tinha antecipado.
Ele precisava conversar de manhã com o diretor para entender a visão de futuro, e à tarde descer até a operação para garantir que essa visão virasse trabalho concreto. Ele chama isso de sanfona: o líder que se estica entre o andar de cima e o chão de execução.
O problema é que poucos estão preparados para isso. O especialista que vira gestor chega com domínio técnico — mas sem o músculo de liderar para cima e para baixo ao mesmo tempo.
Quando a pressão aumenta, o reflexo mais comum é descer para fazer o que o time deveria fazer. Não por falta de confiança, mas por falta de um novo repertório.
O desenvolvimento de competências para liderança exige exatamente isso: construir esse repertório antes que a pressão force uma escolha ruim.
Competência que não aparece no currículo
Camila Novaes tem 26 anos de mercado. Passou pela Sony, pela Cielo, e hoje é diretora na Visa.
O que chama atenção na trajetória dela não é a lista de empresas — é a sequência de apostas intencionais.
Ela fez o MBA executivo na FGV em Negócios Globais depois de um curso de liderança emergente em Harvard. Não por acúmulo de credenciais. Ela precisava de uma visão de negócios que complementasse sua visão de marketing. Sabia exatamente o que estava faltando, e foi buscar.
Ao longo do caminho, ela defendeu que a mobilidade interna é frequentemente subutilizada — mudar de área dentro da mesma empresa permite desenvolver novas competências sem perder o contexto e a credibilidade acumulados.
Quando o assunto é rede de contatos, ela tem uma frase que ficou comigo: network não é sobre pedir ajuda. É uma troca. Você precisa dar antes de receber.
Isso é desenvolvimento intencional. O contrário — fazer cursos em piloto automático, acumular certificações sem conexão com uma estratégia clara — é movimento sem destino.
Seja escasso. Não seja genérico.
Martin tem uma premissa que poucos falam abertamente: quem sabe de tudo não é escasso. No mercado, quem não é escasso compete por preço.
O desenvolvimento de competências na liderança não é sobre saber mais. É sobre saber o que desenvolver, e por quê.
Adalberto Silvestre, que passou por TikTok, Nvidia e hoje é consultor digital e professor na FGV, usa uma imagem clara: o profissional em T. A barra horizontal representa a amplitude — entender negócio, pessoas, dados, estratégia. A barra vertical representa profundidade — ter um pilar onde você é, de fato, referência.
Amplitude sem profundidade é superficialidade. Profundidade sem amplitude é fragilidade.
Renato Chaves, que construiu uma das primeiras operações de growth internalizada da Azul, chega a uma conclusão parecida por outro ângulo. O que ele busca no time não é o especialista que sabe mais — é o especialista curioso, aquele que domina a própria disciplina e ainda quer entender como ela se conecta com o resto.
Aprender a aprender não é uma metáfora. É a competência central que determina se você ainda vai ser relevante daqui a cinco anos.
A decisão mais importante de desenvolvimento de competências raramente é qual curso fazer. É decidir que tipo de profissional você quer ser — e começar a construir isso antes que o mercado decida por você. O que você está deliberadamente desenvolvendo hoje?
Temas vizinhos: quem cresce com método uma hora precisa liderar — veja liderança. E o que vale desenvolver agora depende do que vem em futuro do trabalho.
episódios sobre desenvolvimento profissional
Ep. 351 min
Ep. 454 minCarreira T-shaped: Ampliando Horizontes Sem Perder Profundidade // com Adalberto Silvestre
Ep. 644 minCarreiras técnicas e a gestão de pessoas // com Renato Chaves
Ep. 855 minCarreira em Tech: De desenvolvedor a executivo de tecnologia // Com Martin Luther
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- Qual a diferença entre desenvolver competências técnicas e desenvolver competências de liderança?
- Competência técnica resolve problemas dentro do seu domínio. Competência de liderança resolve problemas que cruzam domínios — e exige um repertório que a especialização sozinha não constrói. Martin Luther (Ep. 08) chama isso de 'sanfona': o líder precisa conversar com o diretor de manhã sobre visão de futuro e descer até a operação à tarde para garantir que essa visão vire trabalho concreto. Quem só domina o técnico, sob pressão, volta a fazer o que o time deveria fazer. O desenvolvimento de competências para liderança começa quando você reconhece que esse músculo precisa ser construído antes que a pressão force uma escolha ruim.
- Especialista ou gestor: qual carreira escolher?
- A dicotomia está ficando obsoleta. A carreira Y — que separava o trilho técnico do trilho de gestão — está evoluindo para ambidestria: profissionais que transitam entre os dois modos dependendo do contexto. Martin Luther (Ep. 08) passou de desenvolvedor no JP Morgan para CEO da BITi9 sem abandonar o lado técnico — mas precisou construir deliberadamente o músculo de liderar pessoas. Adalberto Silvestre (Ep. 04) resume com a imagem do profissional em T: profundidade em uma disciplina, amplitude suficiente para entender o negócio como um todo. A pergunta mais útil não é qual trilho escolher, mas onde você gera mais valor — e se está disposto a ampliar esse lugar.
- Como desenvolver competências de forma intencional, sem ficar acumulando cursos sem propósito?
- O ponto de partida é saber o que está faltando — não o que está na moda. Camila Novaes (Ep. 03), diretora na Visa com passagens por Sony e Cielo, fez o MBA executivo na FGV em Negócios Globais depois de um curso de liderança emergente em Harvard. Não por acúmulo de credenciais: ela precisava de visão de negócios para complementar sua visão de marketing e sabia exatamente qual lacuna estava fechando. Ela também defende que a mobilidade interna é frequentemente subutilizada — mudar de área dentro da mesma empresa desenvolve novas competências sem perder o contexto e a credibilidade acumulados. Desenvolvimento intencional começa com um diagnóstico honesto, não com a agenda de cursos do próximo semestre.
- O que é escassez profissional e por que isso importa mais do que experiência?
- Escassez profissional é o que acontece quando você domina uma combinação de competências que poucos conseguem oferecer. Martin Luther (Ep. 08) tem uma premissa direta: quem sabe de tudo não é escasso, e no mercado quem não é escasso compete por preço. Adalberto Silvestre (Ep. 04) reforça pelo ângulo oposto: profundidade sem amplitude é fragilidade, mas amplitude sem profundidade é superficialidade. O profissional que acumula anos de experiência em uma única dimensão pode ser experiente e genérico ao mesmo tempo. Escassez se constrói combinando um pilar de referência real com visão sistêmica suficiente para conectar esse pilar com o negócio — e isso raramente acontece por acidente.
- Qual o erro mais comum de quem está desenvolvendo competências para assumir cargos de liderança?
- Voltar a fazer o trabalho do time quando a pressão aumenta. Martin Luther (Ep. 08) descreve o impulso em primeira pessoa: na carreira técnica é como se o domínio fosse o seu cérebro — você aprende, repete e entrega. Quando o resultado passa a depender de outras pessoas, esse domínio some, e ele conta que isso lhe dava vontade de voltar toda vez para o caminho técnico. Ceder cobra caro: "você se dá muito trabalho porque você está fazendo a coisa nova, mas fica pegando a coisa antiga". O problema não é falta de confiança — é falta de repertório novo. Denis Tassitano (Ep. 11) aponta outro erro correlato: buscar no time clones do próprio perfil em vez de complementaridade. Renato Chaves (Ep. 06), que construiu uma das primeiras operações de growth internalizada da Azul, complementa: o que diferencia o time de alto desempenho não é o especialista que sabe mais, mas o especialista curioso — aquele que domina sua disciplina e quer entender como ela se conecta com o resto. Liderança técnica exige aprender a dar visibilidade ao time e liderar resultados sem precisar executar cada entrega — e esse aprendizado precisa ser deliberado, não emergencial.
- Aprender a aprender é realmente uma competência ou só um clichê de RH?
- É a competência mais concreta de todas — e a mais difícil de auditar num currículo. Luanna Teófilo (Ep. 10), Senior PM no Itaú com trajetória que passa por direito, Banco do Brasil, startups na Argentina e França e mestrado em linguística computacional na Sorbonne, usa o conceito de eutagogia: a capacidade de aprender de forma autodirigida, sem depender de estrutura externa. Martin Luther (Ep. 08) chega ao mesmo lugar por outro caminho: aprender a aprender é o que determina se você ainda vai ser relevante daqui a cinco anos. Um relatório de recrutamento do LinkedIn de 2025, citado no episódio bônus do TC, aponta que 37% das empresas já usam ativamente inteligência artificial em processos de recrutamento — nesse cenário, a pergunta não é o que você sabe hoje, é com que velocidade você absorve o que ainda não sabe.
- O que é liderança técnica (tech lead)?
- É exercida por quem mantém autoridade técnica — domínio real da área — e assume também responsabilidade por pessoas e resultados de time. Diferente do especialista puro, que entrega sozinho, o líder técnico responde pelo que a equipe entrega.