Futuro do Trabalho

Soft skills, inteligência artificial e conflito geracional — o que está mudando nas relações de trabalho e como se posicionar.

37% das empresas já usam ativamente inteligência artificial em processos de recrutamento. Soft skills deixaram de ser diferencial. O pipeline de juniores está se desfazendo. Quem está prestando atenção nisso?

37% das empresas já usam ativamente inteligência artificial em processos de recrutamento — dado do relatório de recrutamento do LinkedIn (2025), apresentado por Vanessa Pimentel no painel de lançamento do Tirando o Crachá. Não era projeção. Era agora.

Esse número abre uma pergunta mais difícil do que parece. Se a porta de entrada do mercado já está sendo filtrada por algoritmo, o que exatamente prepara alguém para atravessá-la? E — mais incômodo ainda — o que esse presente diz sobre o futuro do trabalho que ainda estamos tentando nomear?

No mesmo painel, Vanessa Pimentel (professora convidada na Fundação Dom Cabral e sócia-fundadora da Sankofa, consultoria de RH), Fernanda Sobral Pacheco (executiva de marketing com mais de 20 anos em B2B e fintech, passagens por LinkedIn, PayPal, PagSeguro e Cielo) e Flávia Camanho (fundadora do Instituto Flux, coach de alta liderança e especialista em sucessão de empresas familiares) destrincharam o tema com a franqueza de quem opera no front.

Em episódios separados, Adalberto Silvestre e Luanna Teófilo chegaram às mesmas conclusões por caminhos completamente diferentes.

Soft skills não são mais diferencial — são o preço de entrada

Fernanda Sobral foi direta no painel: empatia, curiosidade e pensamento crítico não são competências avançadas. São o mínimo para seguir relevante.

Ela citou dado do World Economic Forum: comunicação está entre as habilidades-chave até 2030. Um levantamento do LinkedIn do ano anterior chegou à mesma conclusão, segundo ela.

Mas Fernanda fez uma distinção que vale registrar. Essas competências, disse ela, são "muito usadas, pouquíssimo praticadas". O problema não é falta de discurso — "a gente já tá falando sobre isso há bastante tempo" — é prática.

Musculatura: o que a IA não substitui

O que me preocupa nessa equação é o que Flávia Camanho chamou de musculatura.

Ela acompanha sucessão em empresas familiares e viu jovens executivos que chegam rápido às cadeiras de liderança com acesso fácil à informação — mas sem repertório para fazer algo com ela.

Flávia contou de um call em que o profissional abriu a reunião correndo na esteira. Ela parou, respirou e decidiu fazer uma pergunta difícil. A cena diz mais sobre liderança como facilitação do que qualquer framework de gestão.

Aqui está a minha tese sobre o futuro do trabalho: a IA democratiza o acesso à informação, mas não democratiza o julgamento sobre o que fazer com ela. Quem desenvolveu senso crítico pela fricção — pelo trabalho que dava trabalho — tem uma vantagem que não se copia com prompt.

O profissional T-shaped protege quem souber construí-lo com estratégia

Adalberto Silvestre descreveu a si mesmo como canivete suíço. A empresa onde trabalhou certa vez negou a bolsa para o mestrado na FGV com um argumento simples: "FGV é muito para você." Adalberto pagou do próprio bolso. Hoje dá aula lá. Esse é o tipo de decisão que diferencia quem constrói carreira por convicção de quem espera o mercado reconhecer o potencial.

Ele introduziu uma ideia que uso no meu trabalho de mentoria: a carreira em T não é sobre saber um pouco de tudo. É sobre ter uma base que sustenta a amplitude. "Amplitude por amplitude não gera nada", ele disse. É a profundidade estratégica — no caso dele, dados e visão de negócio — que dá sentido à versatilidade horizontal. Sem essa vertical, a barra do T vira um palito.

Adalberto também foi preciso sobre IA: "Não dá para trabalhar IA sem entender como isso vai mudar culturalmente." Tecnologia sem maturidade cultural não gera valor. Gera automação de processos medíocres em escala maior.

O portfólio substitui o sobrenome empresarial

Luanna Teófilo passou por direito, banco, startups na Argentina, mestrado em linguística computacional na Sorbonne, empreendedorismo por sete anos com o Painel BAP e hoje é Senior PM no Itaú. Anos atrás, numa entrevista com esse histórico, o dono da empresa que a entrevistava levantou no meio da conversa e foi embora: "Quem faz de tudo não é bom em nada." Luanna continuou construindo a carreira multicarreira que a levou ao Itaú.

O que a trajetória dela ensina não é que trajetórias não-lineares são romanticamente corajosas. É que habilidades transferíveis são o único ativo de carreira que nenhuma reestruturação consegue remover. O sobrenome empresarial — "sou do Itaú", "sou do Walmart" — protege enquanto você está lá dentro. O portfólio de competências é o que sobra quando você sai.

Luanna resume isso em uma palavra que aprendi com ela: eutagogia. A capacidade de aprender sozinho, de forma autônoma e contínua, sem esperar que alguém mapeie o caminho. "Aprenda a aprender sozinho", ela diz. É o conselho que dá para a filha. É o que separa quem navega o futuro do trabalho de quem ainda está esperando o mercado dizer o que fazer.

O futuro do trabalho não vai esperar você terminar de se preparar. A pergunta é: o que do seu repertório atual ainda estará valendo daqui a cinco anos?

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Perguntas Frequentes

O que está mudando de verdade no futuro do trabalho com a inteligência artificial?
A IA já está presente — não como promessa, mas como operação. Vanessa Pimentel citou no painel do Tirando o Crachá um dado do relatório de recrutamento do LinkedIn (2025): 37% das empresas já usam ativamente inteligência artificial em processos de recrutamento. O que isso muda é o ponto de entrada: quem filtra candidatos é um algoritmo, e quem passa do filtro precisa demonstrar o que a IA não consegue simular — julgamento, senso crítico e tomada de decisão sob pressão. A pergunta deixou de ser 'a IA vai substituir meu cargo?' e passou a ser 'o que do meu repertório atual ainda vai valer daqui a cinco anos?'
Soft skills realmente importam no mercado de trabalho ou é discurso?
Importam — mas o problema não é reconhecer, é praticar. Fernanda Sobral foi direta no painel: empatia, curiosidade e pensamento crítico deixaram de ser diferenciais e viraram pré-requisito. Ela citou dado do World Economic Forum, que aponta comunicação como habilidade-chave até 2030 — um levantamento do LinkedIn do ano anterior chegou à mesma conclusão, segundo ela. Flávia Camanho acrescentou o conceito que define bem o gap: musculatura. Profissionais que chegaram rápido a cadeiras de liderança têm acesso fácil à informação, mas falta repertório para fazer algo com ela. Soft skills não se desenvolvem lendo sobre soft skills.
Como construir uma carreira T-shaped sem virar generalista sem profundidade?
A carreira em T exige uma vertical que sustente a horizontal — sem isso, a barra vira um palito. Adalberto Silvestre, Gerente Sênior de Consultoria Digital na Avanade, explicou no Tirando o Crachá: 'amplitude por amplitude não gera nada.' No caso dele, a profundidade em dados e visão de negócio é o que dá sentido à versatilidade nas outras áreas. A estratégia prática é definir primeiro qual é a sua vertical — a competência que nenhuma reestruturação remove — e então expandir lateralmente de forma intencional, não oportunista.
Qual o erro mais comum de quem tenta se preparar para o futuro do trabalho?
Confundir acesso à informação com julgamento. A IA democratiza o acesso, mas não democratiza a capacidade de decidir o que fazer com o que se sabe. Adalberto Silvestre foi preciso: 'Não dá para trabalhar IA sem entender como isso vai mudar culturalmente.' Tecnologia sem maturidade cultural não gera valor — gera automação de processos medíocres em escala maior. Profissionais que desenvolveram senso crítico pela fricção, pelo trabalho que dava trabalho, carregam uma vantagem que não se copia com prompt.
Vale a pena ter uma trajetória não-linear no mercado atual?
Habilidades transferíveis são o único ativo de carreira que nenhuma reestruturação consegue remover. Luanna Teófilo, Senior PM no Itaú, passou por direito, banco, startups na Argentina, mestrado em linguística computacional na Sorbonne e sete anos de empreendedorismo antes de chegar ao cargo atual — e o dono da empresa que a entrevistava levantou no meio da conversa e foi embora, dizendo 'quem faz de tudo não é bom em nada'. Ela continuou construindo. O sobrenome empresarial protege enquanto você está dentro da empresa — 'sou do Itaú', 'sou do Walmart' — mas o portfólio de competências é o que sobra quando você sai. A trajetória não-linear vira vantagem quando há fio condutor — e esse fio é a capacidade de aprender sozinho, o que Luanna chama de eutagogia.
Futuro do trabalho e inteligência artificial: o que separa quem se adapta de quem fica para trás?
A capacidade de aprender de forma autônoma e contínua — o que Luanna Teófilo chama de eutagogia. É a mesma capacidade que ela recomenda para a filha: aprender a aprender sozinho, sem esperar que alguém mapeie o caminho. No painel do Tirando o Crachá, Vanessa Pimentel, Fernanda Sobral e Flávia Camanho chegaram a uma conclusão parecida por ângulos diferentes: quem vai navegar o futuro do trabalho com a IA é quem já desenvolveu esse hábito de aprender sozinho — e não espera o mercado dizer o que fazer.
O que são soft skills?
Soft skills são as habilidades comportamentais — comunicação, julgamento sob pressão, pensamento crítico — que complementam o conhecimento técnico e não são substituíveis por inteligência artificial. Dominar a técnica deixou de ser diferencial: o mercado já assume isso como pré-requisito.