CARREIRA

Especialista ou gestor: a carreira Y resolve o falso dilema em tech

15 Jun 20269 min

Quando Martin Luther virou gestor na Natura, levou junto o que sempre fez de melhor: a execução técnica.

Quando Martin Luther virou gestor na Natura, levou junto o que sempre fez de melhor: a execução técnica. Continuou metendo a mão no código que conhecia bem, agora com um time olhando para ele esperando outra coisa.

Esse é o erro silencioso da promoção em tech. A pessoa é promovida pela excelência técnica e depois punida por não largá-la. O dilema que se vende como "especialista ou gestor" costuma ser, na real, incapacidade de soltar o que já dominava.

Martin desmontou um computador aos nove anos. Décadas depois, descobriu que subir não era escolher um dos dois lados da carreira Y — era parar de fazer a pergunta errada.

O promovido por ser bom tecnicamente é punido por não largar a técnica

Martin passou quase dez anos no JP Morgan, de trainee a coordenador. Sabia o que fazia. Mas com dois, três anos de banco, percebeu que o trabalho o isolava — e que queria o oposto disso. Foi fazer intercâmbio nos Estados Unidos. Voltou com inglês fluente e uma visão diferente de onde queria chegar.

A Natura veio depois. Foi lá que a primeira real escola de gestão aconteceu — e junto com ela, o erro clássico.

Quando assumiu a coordenação, o reflexo imediato foi descer para a execução. Não por arrogância. Por familiaridade. O problema que ele conhecia bem era técnico, então continuou resolvendo problemas técnicos. O time esperava direção — ele entregou código.

Isso não é fraqueza de caráter. É um gap de repertório. O especialista que chega à gestão foi premiado, ao longo de anos, por fazer. Cada promoção reforçou o comportamento: quanto melhor eu executar, mais longe vou. Quando a lógica muda — quando o cargo exige que você multiplique o que o time faz, não que você faça no lugar do time — o instinto treinado vira armadilha.

O pior é que o dano é silencioso. O novo gestor ainda entrega, ainda parece competente, ainda resolve. O time, enquanto isso, para de crescer. As pessoas aprendem a esperar pela solução em vez de construí-la. E o gestor, sobrecarregado, acha que o problema é o time.

Quem sai de tech para a gestão sem trabalhar esse gap não está subindo de cargo. Está trocando o lugar onde a pressão aparece.

A carreira Y deixou de ser bifurcação — virou trilho paralelo

A carreira Y nasceu como resposta a um problema real: profissionais técnicos de alto nível que não tinham para onde crescer sem virar gestor. A solução foi criar dois trilhos — o técnico e o de gestão — como alternativas separadas dentro de uma mesma organização.

O conceito funcionou por um tempo. Mas o mercado mudou — e o futuro do trabalho e carreira em tech amplificou esse dilema de formas que o modelo original não previa.

Martin chama isso de ambidestria: a capacidade de operar nos dois modos, alternando dependendo do contexto. Não é mais sobre escolher entre especialista ou gestor. É sobre saber quando fazer e quando criar condições para que outros façam. São habilidades diferentes — e as duas precisam estar disponíveis.

Para quem vem do universo técnico, isso exige construção deliberada. O músculo de liderar para cima e para baixo ao mesmo tempo — o que Martin chama de sanfona da liderança — não é natural para quem passou anos com a cabeça num problema técnico. Pela manhã, conversar com o diretor sobre visão de futuro. À tarde, descer até a operação para garantir que essa visão vire trabalho concreto. Na prática: dois idiomas diferentes, dois tipos de escuta, dois repertórios de resposta.

O que ficou obsoleto não é a carreira Y em si. É a ideia de que ela é uma bifurcação permanente — que você escolhe um lado e fica lá para sempre. Os profissionais que mais crescem em tech hoje não escolheram entre os dois trilhos. Aprenderam a caminhar nos dois ao mesmo tempo.

Esse é o tema central da conversa com o Martin Luther no episódio 08 do Tirando o Crachá. Vale a escuta completa para quem está navegando essa transição.

Seja escasso: por que raridade vale mais que o título no crachá

Martin tem uma premissa que raramente aparece nas conversas de carreira: quem sabe de tudo não é escasso. E no mercado, quem não é escasso compete por preço.

A pergunta "especialista ou gestor" pressupõe que existe um lado certo a escolher. O problema é que essa escolha não é o que determina o valor de carreira. O que determina é o quanto você se torna difícil de substituir — independentemente do título.

Escassez profissional não é mistério. É a combinação de profundidade real num domínio com visão sistêmica suficiente para conectar esse domínio ao negócio. Um desenvolvedor que entende de arquitetura de sistemas e também consegue traduzir escolhas técnicas em consequências de negócio não é apenas um especialista ou apenas um gestor. É escasso.

O problema é que a maioria das pessoas está otimizando para a pergunta errada. Ficam torcendo para que a empresa ofereça o trilho técnico antes de precisar virar gestor. Ou ficam ansiosas para virar gestor antes de aprofundar o suficiente. Em ambos os casos, estão olhando para o título — não para o que os torna genuinamente raros.

Martin construiu a BT9 com essa lógica como fundação. A empresa existe há mais de dez anos. Não é coincidência. O que ele construiu como diferencial não cabe bem numa descrição de cargo — e é exatamente isso que cria proteção de mercado.

Para quem está pensando em desenvolvimento profissional numa perspectiva de longo prazo, a pergunta mais útil não é "devo ser especialista ou gestor?" É: "no que eu consigo ser genuinamente escasso — e o que preciso construir para chegar lá?"

A sanfona da liderança: liderar para cima e para baixo ao mesmo tempo

Existe uma habilidade que quase nenhuma formação cobre e que a maioria dos gestores aprende tarde — quando já custou caro.

O novo gestor em tech normalmente domina a conversa com o time. Sabe o que pedir, sabe avaliar o trabalho, sabe quando o código está errado. Mas subindo na hierarquia, o desafio muda. É preciso defender o trabalho do time para quem não vai ler o código, negociar prazo com quem não entende de arquitetura, traduzir decisões técnicas em linguagem que o negócio consiga processar.

Isso é liderar para cima. É diferente. E a maioria chega despreparada.

Martin aprendeu isso na Natura: a sanfona é real. O líder precisa se esticar nos dois sentidos sem perder a consistência. Quando fala com o diretor, precisa de visão e contexto estratégico. Quando fala com o time, precisa de clareza e proximidade com a execução. Quem trava num dos lados — que fica só no operacional ou que fica só no estratégico — não está liderando. Está ocupando metade do cargo.

O que torna isso mais complexo é que os dois movimentos às vezes acontecem no mesmo dia. Muitas vezes no mesmo período da tarde. A sanfona não tem horário marcado.

Para quem está numa transição de desenvolvedor para executivo de tecnologia, esse é o ponto cego mais comum. Tecnicamente, a pessoa deu um salto real. Mas o repertório de liderança ainda está sendo construído enquanto o cargo já está cobrando resultado.

A saída não é esperar a experiência chegar. É construir deliberadamente o que falta — antes que a pressão force uma escolha ruim.

O que muda quando você para de fazer a pergunta errada

Quem passa anos num dilema de carreira binário — especialista ou gestor carreira Y, técnico ou executivo — frequentemente está gastando energia na pergunta errada.

O título não é o objetivo. É consequência.

Martin saiu de desenvolvedor no JP Morgan, passou pela Natura aprendendo a liderar pela primeira vez, cometeu os erros clássicos da transição, e chegou à BT9 com uma clareza que muita gente leva décadas para construir ou nunca constrói: o valor de carreira não vem de escolher o trilho certo. Vem de se tornar raro o suficiente para que o mercado não tenha substituto fácil.

Isso muda o que você persegue. Em vez de perguntar "quando devo virar gestor?", a pergunta passa a ser "em que combinação de competências eu consigo ser genuinamente difícil de substituir?" Em vez de "devo largar o técnico para crescer?", o ponto passa a ser "o que preciso desenvolver para operar nos dois modos — e em qual contexto cada um faz mais sentido?"

Para plano de carreira de executivos em tech, essa distinção é prática: profissionais que chegam cedo a essa clareza param de esperar pelo trilho ideal e começam a construir o próprio posicionamento. Os que chegam tarde ficam reagindo às opções que aparecem.

A carreira Y existe. A ambidestria existe. O especialista que nunca tocou em gestão existe. O gestor que abandonou completamente o técnico existe. O que não existe mais — pelo menos não como vantagem competitiva — é o profissional que escolheu um lado sem construir nenhuma profundidade no outro.

O mercado tem substituído com facilidade quem está num único ponto do espectro. O que resiste é quem construiu algo que não cabe numa descrição de cargo padrão.

Martin começou desmontando um computador aos nove anos. Não sabia, naquele momento, que décadas depois estaria usando essa mesma curiosidade para montar algo diferente — uma empresa, um modelo de gestão, um posicionamento de mercado. O computador foi o começo de uma trajetória de construção deliberada, não de uma escolha entre dois trilhos.

A pergunta que fica: onde, na sua trajetória, você ainda está competindo onde há muita gente boa — quando poderia estar construindo o que te torna escasso?


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