
Vanessa Pimentel
Professora da Fundação Dom Cabral e sócia-fundadora da Sankofa
Vanessa Pimentel saiu de um cargo executivo global na Michelin sem ter o próximo emprego confirmado. A escolha foi deliberada, e incomodou muita gente. Formada em Direito, migrou cedo para RH. Passou pela TV Globo, onde ganhou exposição a decisões estratégicas, pelo Sistema S, onde aprendeu a navegar em ambientes de lógica política, e pela Michelin em nível executivo global, com passagem pela França. Depois fundou a Sankofa, consultoria de RH para startups e pequenas empresas. É professora convidada da Fundação Dom Cabral em liderança, levando histórias reais — inclusive os próprios erros.
Perfil Editorial
Antes de entender qualquer coisa sobre currículo ou processo seletivo, Vanessa Pimentel aprendeu a ler o rosto de quem não gostava da própria foto. Durante a faculdade de Direito, ela trabalhava numa cabine de foto 3x4 — e quando o retrato saía ruim, o prejuízo saía do bolso dela. A cliente não precisava reclamar: dava para ver na cara, antes de qualquer palavra, que aquilo não tinha dado certo.
Décadas depois, em comitês executivos e salas de aula na Fundação Dom Cabral, ela batizou essa habilidade de inteligência contextual. Mas aprendeu primeiro numa cabine de foto, sem crachá nenhum.
Fazer Direito não foi escolha — foi o caminho que a família via como seguro. O pai era funcionário público no Tribunal de Justiça do Rio, e a bolsa para filhos de servidores tornou o curso praticamente obrigatório. Vanessa cursou a faculdade sem plano de carreira: trabalhava na cabine de foto e só perto da formatura conseguiu o primeiro estágio, na área jurídica de uma empresa.
Foi ali, por causa do jeito de se comunicar, que passou a apoiar a equipe de RH da própria empresa — e aceitou o convite para migrar de área. "Eu não tinha muito essa visibilidade de planejar a carreira", ela reconhece. "Eu mal planejava o próximo passo. Eu sentia alguns incômodos e esses incômodos faziam com que eu me movimentasse." O custo foi abrir mão do caminho que a família tinha bancado, sem ter outro plano pronto para pôr no lugar.
O segundo teste veio no Sistema S, na primeira posição de gestão. Vanessa vinha da TV Globo, onde uma gestora abriu espaço em reuniões estratégicas e ampliou sua exposição a decisões de alto nível. No Sistema S, a régua era outra: a organização funcionava por negociação, alianças e bastidores. "Eu aprendi com erro", ela diz sobre o período. "Eu aprendi apanhando, eu aprendi sofrendo."
O que a tirou do buraco foi um gestor disposto a nomear o problema sem podar — explicou os códigos daquele tabuleiro específico. A competência que faltava ela nomeia com ressalva: "não gosto muito dessa palavra, mas está faltando aqui uma melhor. Mas esse trânsito político, esse sim, eu acho que tem muito do que é."
Adota o termo sem endossar a carga que ele carrega. E converte a experiência em régua para quem lidera: se você escolheu uma posição de gestão, desenvolver gente é responsabilidade da sua cadeira — não é conversa difícil que se adia por falta de tempo.
A aposta mais cara veio depois da Michelin, onde chegou à primeira cadeira executiva de RH, com exposição internacional e passagens pela França. Foram quase sete anos sustentando entrega em alta intensidade — até a conta pesar demais para caber só na carreira. Em vez de migrar para outra cadeira executiva, escolheu algo raro: um sabático.
Não foi decisão de um dia para o outro. "É um lugar de muito planejamento", ela explica — entender o que não fazia mais sentido, mapear competências, olhar para o financeiro antes de qualquer coisa. Do silêncio da pausa nasceu a Sankofa: não um plano pronto, mas um nicho identificado. RH estruturado para startups e pequenas empresas que ainda não têm estrutura própria e que, sem orientação, acabam respondendo processo trabalhista por falta de processo.
Por que ela abre a aula contando o que fez de errado
Na Fundação Dom Cabral — uma das escolas de negócios mais bem reconhecidas no Brasil —, Vanessa dá aula para executivos de organizações variadas. Não abre com currículo. Abre admitindo falha: já foi, nas próprias palavras, "uma pessoa que causou insegurança no ambiente com a minha equipe" — e já cometeu falhas concretas de processo que reconhece em sala, sem disfarce.
Não é vulnerabilidade decorativa. É técnica: o aprendizado acontece na identificação com o erro, não com o conceito, e ela usa a própria falha como material de ensino.
O mesmo padrão aparece em como decide quando questionar. Vanessa separa questionar por questionar de questionar para propor — e é categórica sobre o momento certo: não levanta a mão sem contexto e sem alternativa concreta na mesa. A pergunta sozinha, ela reconhece, é fácil de ler como sabotagem. A pergunta com proposta atrás é o que ela chama de vantagem competitiva.
Um ano atrás, se alguém pedisse para Vanessa se apresentar, ela responderia com a ocupação. Hoje ela mesma se surpreende com o quanto isso mudou: "Durante esse último ano, que foi um ano de muita experimentação, de novos aprendizados, eu aprendi a me redefinir." Perguntada sobre o que descobriu de novo sobre si mesma nesse processo, riu antes de responder: "Nossa, que pergunta profunda. Tô me descobrindo."
Isso não está em nenhuma bio pública — porque ainda está em andamento. A mulher que passou a carreira inteira lendo o contexto dos outros está, pela primeira vez em muito tempo, sem uma estrutura corporativa alheia para decifrar.
"O caminho é seu, né, Felipe? Acho que muitas vezes a gente pavimenta o caminho e faz escolhas pensando no outro. Não, o caminho é seu. Ele tem que fazer sentido para você."
Foi assim que Vanessa encerrou a conversa — devolvendo ao anfitrião, em tempo real, a mesma leitura de cenário que passou a hora inteira descrevendo.
Duas cadeiras — a Sankofa e a sala de aula da Dom Cabral — não resolvem a pergunta que ficou em aberto na conversa: quem é Vanessa Pimentel quando nenhuma das duas está em jogo. Ela mesma ainda não tem essa resposta pronta.
