
Luanna Teófilo
Senior Product Manager no Itaú Unibanco
Luanna Teófilo largou um cargo concursado no Banco do Brasil para morar em Paris e Buenos Aires. Com formação em Direito, foi se sustentar com faxina e passeio de cães enquanto se graduava em Linguística Computacional na Sorbonne. Passou pelas primeiras startups parisienses antes de voltar ao Brasil e fundar o Painel BAP, primeiro painel de pesquisa afro-brasileiro do país. Tocou o negócio por sete anos — nos primeiros quatro, cinco, reinvestindo metade do próprio salário — até ser acelerado pela Feira Preta e Meta. Hoje é Senior Product Manager no Itaú Unibanco.
Perfil Editorial
Numa tarde qualquer, sem hora marcada, Luanna Teófilo discou o número de uma empresa de tecnologia na Suécia. Não tinha sócio, não tinha capital, não tinha nem reunião agendada — só a experiência de ter administrado um painel de pesquisas em Paris e uma ideia que ainda não existia no papel. Se apresentou assim: sei operar, mas não tenho dinheiro. A empresa cedeu a tecnologia de graça. Foi o primeiro passo do que, anos depois, se tornaria o Painel BAP — o primeiro painel de pesquisas afro-brasileiro do país.
Essa ligação não nasceu do nada. Antes dela, houve uma graduação em Direito cursada com a certeza de que nunca exerceria a profissão — um estágio no contencioso da CDHU, rodando fóruns pela cidade, foi toda a aproximação real que teve da advocacia — e oito anos como escriturária do Banco do Brasil, o cargo que a família sonhava para ela, conquistado num concurso prestado aos 18 anos.
No último ano da faculdade, faltou 29 dias seguidos ao trabalho. Fez uma lista do que sabia fazer: ler, escrever, dirigir, falar. Pediu demissão do banco sem ter outro emprego à espera. Contou aos pais que ia estudar francês em Paris — porque abandonar um concurso público precisa de uma explicação que os pais aceitem repetir para os outros. A viagem era para três semanas. Ficou quatro meses, viajou a Europa inteira e descobriu, sem diploma nenhum que sustentasse isso, que sabia se virar em qualquer lugar. Dali seguiu para Buenos Aires, onde conseguiu o primeiro emprego numa startup, e decidiu voltar à França para um mestrado em Linguística Computacional na Sorbonne — percebeu que, para disputar vaga nas empresas de tecnologia grandes, o diploma de Direito "para tecnologia não significa nada".
De volta ao Brasil, o diploma francês não abriu as portas que ela esperava. Numa entrevista para uma empresa grande, contando a própria experiência como generalista, um dos donos a interrompeu: "quem faz de tudo não é bom em nada" — levantou e saiu no meio da resposta. Anos depois, já em outra fase de carreira, veio a ligação para a empresa sueca que abre este perfil — mas a tecnologia cedida de graça ficou parada por um tempo: os sócios que tentou não deram certo, e ela manteve o emprego CLT, tocando o painel como projeto de lado. O empurrão final veio de um episódio de injustiça: foi demitida de uma multinacional depois de trançar o cabelo, caso que ganhou repercussão na mídia. "Agora é a hora", decidiu. Com o próprio dinheiro, contratou uma designer e lançou o Painel BAP para valer.
A segunda aposta grande custou mais caro. Fundado sozinho, o Painel BAP rodou sete anos em paralelo a empregos CLT — Luanna reinvestindo metade do salário na empresa nos quatro primeiros anos, trabalhando 14, 15 horas por dia. A operação cresceu o suficiente para passar por uma aceleração ligada à Feira Preta, em parceria com a Meta, e fechar contratos com grandes empresas. Em 2023, ao tentar captar investimento para crescer, dois caminhos se fecharam ao mesmo tempo: o crédito público, consumido por exigências de certidões que uma operação pequena não sustenta por muito tempo, e o crédito privado, na Faria Lima, onde um investidor recebia 800 pedidos de investimento por ano e aprovava quatro — segundo ela, majoritariamente empresas brancas. Luanna fechou um balancete e descobriu que tinha reinvestido o equivalente a um apartamento inteiro — o mesmo apartamento onde morava sem móveis, porque não sobrava dinheiro para comprá-los. A decisão de encerrar não veio da falta de clientes. Veio de uma reunião de time em que ela precisaria pedir para as pessoas trabalharem sem receber. Preferiu fechar a empresa a pedir isso.
A disciplina que vem da escassez
Na prática, Luanna trocava de registro conforme o tamanho da empresa. Enquanto tocava o Painel BAP, levava para dentro da pequena operação as formalidades que via nas multinacionais onde trabalhava de dia — processo, estrutura financeira, previsibilidade. "Por mais pequena que fosse, com pouco recurso, era extremamente estruturada", ela descreve: um Pix recebido de manhã já tinha destino de investimento definido à tarde. Ao mesmo tempo, levava para dentro das corporações o oposto — a lógica de startup de que quase tudo dá para fazer, só falta tentar.
Essa disciplina vinda da escassez também mudou o que ela enxerga como limitação. Num curso de negócios na GV, já com quatro ou cinco anos de Painel BAP rodando, ouviu de um professor que era impossível abrir uma empresa sem capital de giro. Ela não sabia direito o que era capital de giro. Nunca teve caixa — e mesmo assim mantinha dez pessoas trabalhando e sendo pagas. Dentro do Itaú, o parâmetro se inverteu: tem profissional bom, tem dinheiro, tem tempo, e uma cultura em que dá para perguntar ao colega e aprender junto. "Às vezes eu vejo jovens lá, eles fritando", diz. O que para eles é obstáculo, para ela é estrutura de sobra.
Na conversa para o TC, Luanna descreveu uma cena que resume o que ficou de mais direto do encontro. Ao buscar investimento para o Painel BAP em 2023, sentou à mesa com o investidor da Faria Lima citado acima. Sobre o próprio critério de investimento, ele disse a ela:
"Quando a gente investe em alguém, a gente não investe no negócio, investe na pessoa."
Não investiu no negócio dela. Segundo Luanna, se tivesse mandado currículo pedindo emprego, provavelmente ele a teria contratado.
Ela liga o episódio a uma pergunta que fez questão de deixar no ar durante a conversa: "Cadê a grande empresa preta? Cadê a grande empresa que veio da periferia? Nenhuma." E completa que a maioria dos novos negócios abertos no Brasil é de pessoas pretas e periféricas — poucos desses negócios crescem além de um certo tamanho.
A conversa também deixou um relato direto do custo emocional do fechamento. Por um tempo depois de encerrar a empresa, evitava sair de casa — achava que seria motivo de riso na rua. Ela nomeia o episódio como fracasso, mesmo sabendo que a lógica do Vale do Silício manda "ter orgulho do fracasso". Sete anos de operação e contratos com grandes empresas não bastaram para blindá-la da vergonha.
Passar de dona do próprio negócio para funcionária de novo não foi trivial: foram seis meses sem trabalhar, doze entrevistas só no processo seletivo do Google, até fechar a vaga no Itaú, onde hoje atua como PM técnica de uma squad de fundação, no meio de desenvolvedores.
O conselho que dá à filha resume o que aprendeu no caminho mais torto do que reto que percorreu: aprenda a aprender sozinho — o nome técnico é heutagogia, mas o que importa é a ideia de que ninguém mais vai construir esse repertório por você. É o mesmo raciocínio que a levou a listar as próprias habilidades antes de pedir demissão do banco, décadas atrás.
O Painel BAP fechou, mas o impulso que o criou não fechou junto. Ela mesma resume o que fica em aberto: o fogo ainda arde. A pergunta que não respondeu na conversa é quando — não se — vai apostar de novo em ter o próprio negócio.
