Denis Tassitano

Denis Tassitano

CEO da Swile Brasil

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Quem trabalhou no marketing de Corinthians e Flamengo não costuma terminar como CEO da Swile Brasil. Denis Tassitano fez esse caminho — formado em Publicidade com extensão na NYU, começou na Microsiga (hoje TOTVS) em vendas indiretas de tecnologia, passou pelo marketing esportivo e voltou definitivamente para a área. Teve duas passagens pela SAP, com um período empreendendo entre elas, e chegou a Diretor de Receita antes de assumir, em 2026, o comando da Swile Brasil. Fundou o Best in Black, hub de conexões estratégicas para a comunidade negra, e é cofundador da Pactuar, de mentoria e formação de lideranças.

Perfil Editorial

Denis Tassitano fala inglês fluente desde criança porque o pai — ex-jogador de futebol que passou por Corinthians e Fluminense, chegou a enfrentar Pelé em campo e foi transferido para os Estados Unidos — o levou para estudar lá. É a resposta que ele dá sempre que alguém sugere que uma vaga afirmativa para profissionais negros vai ter que abrir mão do inglês, como se fluência fosse mérito e não acesso. "Você assume que um público não fala inglês e o outro fala. No Brasil, a maioria das pessoas não falam", contesta.

Hoje CEO da Swile Brasil, Tassitano descreve a própria carreira como algo que nunca desenhou. "Se eu fosse pensar lá atrás, onde eu estaria hoje, não seria aqui", diz. "Eu agradeço muito as coisas que eu queria e que deram errado, porque se tudo que eu quisesse tivesse dado certo, eu acho que eu estaria em outro lugar que talvez não fosse tão bom como o que eu tô hoje."

A entrada em vendas foi um desses acasos. Começou numa área de parcerias — na Microsiga, hoje TOTVS, treinando revendas — e foi arrastado para o comercial porque os parceiros precisavam vender e alguém tinha que ensinar.

A primeira aposta deliberada veio depois. Trocou a estrutura da tecnologia pelo marketing esportivo, com passagens por Corinthians e Flamengo. Foi um mercado vibrante, mas sem a previsibilidade que ele buscava para construir algo de longo prazo. Voltou para a tecnologia — e o recomeço custou reconhecer que paixão por esporte não sustenta sozinha a carreira que ele queria montar.

A segunda aposta foi maior. Depois de uma primeira passagem pela SAP, saiu para abrir a própria empresa. Aprendeu ali o que nenhum cargo de vendedor ensina: fluxo de caixa, gestão de time, a incerteza de ser dono do risco. Quando voltou à companhia, anos depois, vendas já não eram resultado de esforço individual — eram consequência de estrutura e relacionamento.

Essa virada o preparou para o que Felipe, ao apresentá-lo, descreveu como a capacidade de "cruzar a linha da arrebentação": deixar de ser o vendedor que fecha contrato e virar o executivo que entende compliance, entrega e financeiro antes de prometer qualquer coisa ao cliente. "Se você não conhecer essa cadeia, é difícil você tá na liderança", diz Tassitano, que credita essa visão de conjunto — construída em décadas trabalhando com ERPs — à sua chegada a cargos executivos.

Por que ele tira o próprio vendedor de uma conta quando o encaixe não fecha

Tassitano descreve o próprio perfil como agressivo — "energia", prefere chamar — e diz que aprendeu a dosar essa intensidade ao montar equipe. A regra que segue: nunca contratar clones. "Eu quero alguém que consiga mitigar essas debilidades", diz, sobre escolher gente diferente dele para o time.

Já reorganizou carteiras de clientes que formalmente pertenciam a um vendedor porque a relação com aquele cliente simplesmente não funcionava — o que resume como "o santo não vai bater". Prefere trocar de pessoa a insistir num encaixe que não existe, mesmo quando isso significa tirar uma conta de alguém antes de ela virar contrato.

A mesma lógica orienta sua leitura sobre o alto turnover em vendas, que ele atribui a falha de processo, não de gente. Cobra das empresas o que chama de "pecado na contratação" — decisão apressada, seguida de demissão rápida quando o resultado não vem — e o "pecado do onboarding": times colocados para vender sem entender produto, concorrência ou ferramentas.

"O cara dá o notebook, o telefone, o carro e vai lá, é isso. Não funciona assim", diz. Defende paciência com queda de performance pontual, porque considera que vendedor não é máquina — e que demitir cedo demais é, na visão dele, erro de gestão disfarçado de meritocracia.

O que ficou da conversa no TC — e não está em nenhum perfil público de Tassitano — foi o relato de como ele conseguiu o emprego que ocupa hoje. "A pior entrevista que eu fiz na minha vida foi na empresa que eu trabalho hoje", diz. Ele tinha se machucado num treino para a maratona de Nova York — prova que faria em um mês, depois de oito meses de preparação — e naquele mesmo dia descobriria se precisaria operar.

Foi mal na conversa. Avançou de fase porque um amigo já tinha indicado seu nome ao entrevistador antes da entrevista acontecer — sem isso, diz, o avaliador teria ficado só com a imagem daquela conversa ruim.

"Quantas pessoas mais tinham no meu nível? Várias", reflete sobre o processo seletivo. Foi o network, não o currículo, que decidiu.

Há também um momento de autocrítica que raramente aparece em palestra ou LinkedIn. Tassitano chegou ao cargo que queria e levou tempo para notar que não estava aproveitando nada daquilo. "Eu achei que eu ia desfrutar lá atrás quando eu chegasse nessa posição", diz.

O antídoto que descreve é doméstico. Veio de moto até a gravação — dois quilômetros de casa — e percebeu no caminho que aquele "rolezinho" já bastava para ser um dia feliz, sem precisar da Riviera Francesa ou dos Alpes para justificar o descanso.

Foi esse mesmo incômodo — o de ter chegado a um lugar que não sabia desfrutar — que deu forma ao Best in Black, hub que fundou para conectar profissionais, majoritariamente negros, mas não exclusivamente, fora do roteiro de trabalho: jantares, viagens, aulas de golfe, cursos.

A aposta é que negócio nasce de convívio, não de evento corporativo — e que gente cobrada a vida inteira a "se provar" também precisa de espaço para desfrutar do que já conquistou. Tassitano é também cofundador da Pactuar, organização voltada a mentoria e formação de lideranças.

Desde que um vizinho lhe disse que o dia tem 8 horas para trabalhar, 8 para descansar e 8 para se divertir, Tassitano audita as próprias 24 horas num Excel — trabalho, deslocamento, gente. A rede que levou décadas para construir hoje sustenta um hub, uma organização de mentoria e a cadeira que ocupa hoje na Swile Brasil.

A pergunta que ficou em aberto na conversa não foi como ele chegou até aqui. Foi quantas horas do dia sobram, hoje, para um rolê de moto sem pressa pelo próprio bairro — e se ele vai continuar se permitindo isso quando a agenda apertar de novo.

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