
Carlos Alexandre
Operations Manager no Santander
Carlos Alexandre estruturou do zero uma plataforma de investimentos para pessoa física — e depois a vendeu para a XP. Por trás dessa operação está uma trajetória que começa como estagiário na ICAP, corretora internacional onde ficou 15 anos e chegou a liderar operações. Formado em Administração Industrial por instituição técnica federal no Rio de Janeiro, foi ao exterior para eliminar o inglês como barreira e assumiu gestão pela primeira vez aos 24 anos, em São Paulo. Hoje é Operations Manager no Santander, onde acumula a administração de fundos e apoia programas de diversidade e educação financeira.
Perfil Editorial
Carlos Alexandre passou quase dois anos guardando o vale-refeição do estágio. Não era para nenhuma reserva de emergência — era para comprar um curso de inglês no Canadá, pago com o cartão da mãe porque a escola não aceitava dinheiro vindo do Brasil.
Ele tinha 19 anos e uma promessa em jogo: a ICAP, corretora inglesa onde estagiava desde 2009, avisou que o moveria para a área internacional se ele voltasse "com o inglês afiado mesmo". Voltou.
Usou esse inglês ao longo dos 16 anos de carreira que já soma no mercado financeiro — a maior parte deles em backoffice, a área que, segundo ele, "não vê formação de profissionais em instituições de educação". "Você precisa formar esses profissionais dentro de casa", diz.
A ICAP cumpriu a promessa. De volta ao Brasil, Carlos passou a reportar para Nova York, com cópia para Londres, e rodou por quase todas as mesas de operações da corretora: garantias, ações, derivativos, clientes internacionais, renda fixa.
Foi na renda fixa que aprendeu, nas palavras dele, "a fazer conta" — um mercado que, segundo ele, ainda hoje não tem pregão eletrônico. "É literalmente um monte de gente gritando em volta de uma mesa ainda", descreve.
Aos 24 anos veio a segunda aposta: a primeira cadeira de liderança, em São Paulo, na área de operações de renda fixa. O time que ele assumiu tinha dois profissionais com 20 e quase 30 anos de carreira na área — mais tempo de mercado do que ele tinha de vida.
O custo foi a desconfiança inicial. Numa área técnica, ninguém confia em gestão antes de confiar em conhecimento. Carlos resolveu isso arregaçando as mangas: passou os primeiros meses mostrando que sabia operar, não só coordenar. O time só cedeu depois disso.
A terceira aposta trocou o tabuleiro inteiro. No fim de 2019, ele voltou ao Rio para ajudar a montar, do zero, uma plataforma de investimentos para pessoa física — depois de anos operando só com clientes institucionais, num mercado em que a operação mínima já nascia na casa do milhão.
Ele descreve a mudança como ir "da água pro vinho": teve que aprender previdência e seguro, produtos que nunca tinha tocado, e sentar para atender ligação de cliente com R$ 200 investidos.
"Hoje eu tenho um respeito muito grande por quem atende ao público", diz Carlos sobre o que essa fase mudou nele. O projeto deu certo — a plataforma foi vendida à XP cerca de seis meses depois de ele deixar a ICAP.
A quarta aposta veio quase por acaso. Carlos sempre quis trabalhar num banco estrangeiro, e um executivo do Santander o contratou antes mesmo de ele completar os três anos que havia planejado ficar no Rio. Entre a proposta e a mudança para São Paulo, passou um mês.
Ele descreve a diferença de escala — de uma corretora de 250 pessoas para um banco com mais de 50 mil funcionários — como sair "de um carro para uma locomotiva".
Um projeto que na ICAP ele apresentava numa sala de diretoria e tinha resposta quase imediata agora precisa de patrocinador de área comercial, comitê de risco local e aprovação final em Madrid. Com o tempo, a área sob sua responsabilidade cresceu para incluir também administração de fundos.
A parede de vidro que ele mandou construir
Quando assumiu aquele primeiro time em São Paulo, aos 24 anos, a mesa de operações não tinha nenhuma separação física da mesa comercial. Os vinte profissionais do comercial que fechavam as operações vinham direto cobrar prioridade: "faz o meu primeiro, faz o meu primeiro".
Carlos colocou uma parede de vidro entre as duas mesas — visível o suficiente para provar que o time estava trabalhando, fechada o suficiente para dar sossego para fazer o trabalho. A equipe entendeu que havia alguém pensando no bem-estar deles, o que, segundo ele, não era comum na época. Hoje ainda mantém amizade pessoal com gente daquele time.
O mesmo padrão aparece na forma como ele trata a volatilidade de mercado. Quando o dólar dispara ou um noticiário político mexe com o câmbio, o instinto do investidor de varejo costuma ser temer.
O de Carlos é planejar escala de equipe: "eu preciso saber se amanhã vai ser um dia caótico ou um dia tranquilo" — porque isso decide quem folga e quem fica no dia seguinte.
O que mais chama atenção na conversa não é a trajetória — é a lógica invertida de quem trabalha nos bastidores do mercado.
"Se tudo tá andando dentro da maior normalidade, não gera negócio, e a gente também não trabalha. A gente gosta que movimente", disse Carlos. Para quem está na ponta do backoffice, a notícia ruim de um lado do mercado é o gatilho de operação do outro.
O outro ponto que chamou atenção foi uma autocrítica direta. Perguntado sobre o que diria ao Carlos de 20 anos, ele não falou de técnica — falou de rede. Disse que, no início da carreira, no Rio, estava "muito focado no técnico" e não deu ao networking "tanto carinho" quanto merecia.
Só passou a construir isso com qualidade depois de se mudar para São Paulo, onde, segundo ele, dá para "sentar num bar e tomar uma cerveja com o cara da outra instituição" de um jeito que o Rio nunca permitiu.
Carlos também falou sobre o que já não diferencia mais um banco do outro. Produtos de renda fixa de instituições diferentes praticamente não se distinguem entre si — o que muda, segundo ele, é a experiência de quem acessa. Sobre o cliente de varejo, ele resume: "ela tem todas as dúvidas e ela quer tirar todas as dúvidas" — algo que só aprendeu depois de deixar de lidar exclusivamente com operações de milhões.
A aposta que ainda está em aberto não é mais sobre inglês, nem sobre provar competência técnica para um time mais velho — essas ele já fez. É a rede que, por conta própria, ele reconhece ter deixado para depois dos 30.
A pergunta que fica é se dá para recuperar, numa carreira técnica, o tempo que se perde não pegando o telefone.
