
Camila Novaes
Diretora de Marketing na Visa
Camila Novaes aprendeu circuitos elétricos na Escola Técnica Federal de São Paulo — e construiu mais de 26 anos de carreira em marketing por setores completamente distintos. Formada em Relações Públicas pela UNESP, passou por Sony e Cielo antes de chegar à Visa, onde é Diretora de Marketing responsável por parcerias com bancos, fintechs e varejistas — incluindo ativações em Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. Reconhecida como Women to Watch 2022, é colunista do Meio & Mensagem e indicada ao Prêmio Caboré na categoria Profissional de Inovação.
Perfil Editorial
O telefone tocou duas vezes na república onde Camila Novaes morava, em Bauru, em 1999. Da primeira vez, ela desligou — um desconhecido perguntando se procurava emprego soava a trote. Da segunda, atendeu.
Era o diretor da White Martins: levara o carro a uma oficina, perguntara se alguém ali conhecia gente disponível para uma vaga, e o nome dela chegou por acaso. Pegou o ônibus, pegou carona com ele, fez a entrevista e assinou a carteira naquele mês.
Passaram-se 26 anos sem um dia de intervalo — ela faz questão de contar isso antes de qualquer cargo.
Essa ligação só chegou até ela porque uma aposta anterior já estava em curso. Ainda no ensino médio, Camila fez o técnico em Eletrotécnica na antiga Escola Técnica Federal de São Paulo pensando em virar engenheira. Descobriu, na prática, que exatas não era o dela — trocou o plano por relações públicas, mas manteve uma condição fixa: só faria universidade pública.
Testou aulas de letras na Ibero, conversou com o curso de relações internacionais da PUC, decidiu por relações públicas e cursou na UNESP de Bauru, a opção pública que a tirava de São Paulo.
Antes de embarcar, fechou um combinado com os pais: fora de casa, teria seis meses para se sustentar sozinha. O sonho de "viver a universidade" durou o tempo de descobrir que não tinha bolsa; em 15 dias, arranjou estágio numa concessionária. Foi o estágio que terminou bem na hora em que aquele telefone tocou.
A segunda aposta veio anos depois, dentro da Sony — empresa que ela descreve como o emprego dos sonhos. Ali, em seis anos e meio, passou por eventos, imprensa, patrocínio e um projeto chamado Sony United, que reunia as divisões do grupo (eletrônicos, filmes, música) para costurar campanhas em conjunto. Foi trabalho de bastidor: atas, alinhamento, tradução de interesses diferentes em uma ação só.
Num certo momento, incomodada com a dúvida sobre se o salário correspondia ao que entregava, ouviu de um amigo um conselho direto — se quer saber quanto vale, pergunta ao mercado. Fez entrevistas e trocou a Sony por uma cadeira de coordenação na então Visanet (hoje Cielo), em 2009: saiu do entretenimento para o mercado financeiro, um setor que não conhecia, para focar em eventos — a parte do trabalho que mais a atraía.
Ficou mais quatro anos e meio lá, mas não parada: primeiro em leis de incentivo, depois em trade, uma movimentação lateral deliberada para reunir o perfil que a levaria, na saída seguinte, a uma cadeira de gerência na Sony Mobile.
Por que ela parou de tentar ser a protagonista
Camila conta que, num período da carreira, queria mostrar o que tinha feito — "olha que eu fiz, olha eu, eu, eu" — e não entendia por que as coisas não aconteciam. Um mentor foi direto: ela não precisava ser a protagonista, precisava construir o caminho para que outras pessoas fossem.
Hoje, na Visa, onde está há nove anos, isso aparece em como ela descreve o próprio trabalho: orquestrar parcerias entre a marca e emissores — bancos, fintechs, redes de varejo — sem que nenhum lado perca território.
O exemplo que ela cita é a parceria entre Bradesco, Disney e Visa, ativa há seis anos, com três marcas que têm cada uma suas próprias regras de governança sobre o que pode e o que não pode ser dito. Fazer isso funcionar, na prática dela, significa aparecer menos e alinhar mais. Quando o entrevistador resume essa postura como fazer o time funcionar em vez de brilhar sozinha, ela confirma sem ressalva.
O que a bio pública de Camila não conta é o trabalho que ela fez em paralelo à carreira executiva. Ao entrar na Visa, integrou o comitê executivo da Rede de Profissionais Negros, iniciativa que conecta profissionais negros ao mercado corporativo por mentoria, encontros de network e eventos técnicos dentro de grandes empresas. Coube a ela negociar o acesso: levou o grupo para dentro do Google, da Microsoft, da EY. Depois, fez o mesmo recorte para o mercado de comunicação, no Publicitários Negros.
Foi nessa parte da conversa que ela nomeou de onde vem a competência que hoje usa numa mesa de negociação de diretoria: "nós, como pessoas negras, a gente já vem com isso no chip", disse, sobre jogo de cintura e capacidade de negociar.
Ela não opõe vivência a estudo. Na mesma resposta, coloca o jogo de cintura, a negociação e a capacidade de orquestrar como "tudo isso junto e misturado" com "essa base de ter passado por instituições, por ter estudado" — é a soma que, na leitura dela, forma um profissional mais versátil.
A mesma ideia aparece quando explica por que sabe exatamente o que precisa ser feito para montar um evento ou construir uma campanha: "sei por ter feito e sei por ter estudado". E observa que muitos profissionais só têm um dos dois lados, porque fizeram carreira voltada à gestão.
Ela também defende, tanto quanto estudar, marcar um café com alguém dois níveis acima na hierarquia — não para pedir nada, para ouvir a trajetória de quem admira. Rede tratada como investimento de longo prazo, não como recurso de emergência quando falta emprego.
Em abril do ano que vem, Camila completa dez anos na Visa — mais tempo do que ficou em qualquer outra empresa antes. Sobre como concilia currículos com ciclos cada vez mais curtos, o maior número de gerações já convivendo ao mesmo tempo no mercado e até quem defende abandonar a CLT que ela carrega há 26 anos, ela não fecha a questão: "é complexo, gente", resumiu, rindo, ao final da conversa. A resposta ainda está sendo negociada.
