Nohoa Arcanjo

Nohoa Arcanjo

CEO e cofundadora da Creators Platform

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Nohoa Arcanjo migrou da produção de moda para o marketing ao ligar, uma a uma, para cada marca da sua agenda até conseguir a primeira vaga. Passou por TNG, Pandora e Meio & Mensagem antes de empreender ao lado do marido. A startup evoluiu para a Creators Platform LLC, plataforma de marketing de influência com quase 30 colaboradores e clientes como YouTube, TikTok, L'Oréal e Carrefour. Selecionada pelo Black Founders Fund do Google. Vencedora do Prêmio Caboré na categoria Inovação em 2024. Assumiu a cadeira de CEO em 2025.

Perfil Editorial

Numa entrevista de emprego para coordenar o marketing da Pandora, Nohoa Arcanjo respondeu "não sei" várias vezes seguidas. Do outro lado da mesa estava Rachel Maia, então CEO da multinacional e uma das poucas mulheres pretas à frente de uma empresa desse porte no Brasil. Em algum momento, Rachel pediu à gerente que a acompanhava para que Nohoa esperasse do lado de fora da sala. Nohoa achou que tinha perdido a vaga. Saiu de lá contratada — só que para um cargo que nem tinha sido aberto ainda.

Ela resume a lógica por trás de topar aquela entrevista despreparada numa frase só: "Se a gente não arrisca, a gente já sabe que não petisca."

A primeira aposta de carreira veio antes disso, ainda na faculdade de moda, numa época em que o curso era visto com desconfiança — colegas contavam que tiveram que brigar com a própria família para se matricular. Nohoa entrou como estilista, mas o primeiro emprego, numa confecção em São Paulo, mostrou outra coisa: ela tinha mais habilidades para negócio do que para desenhar roupa. No segundo ano, a faculdade exigia escolher entre estilo e negócios da moda. Ela escolheu negócios — e meses depois percebeu que negócios da moda era estreito demais para o que queria. Transferiu o curso inteiro para marketing, abandonando uma trilha que tinha acabado de escolher, sem garantia nenhuma de que a nova pagaria a conta.

Foi nessa mesma fase que começou a rodar sua agenda de contatos — construída por obrigação, para conseguir autorizações de produção de moda — ligando marca por marca até achar uma vaga em marketing. Repetiu o movimento mais de uma vez ao longo da carreira, sempre com o mesmo roteiro: perguntar direto, para muita gente, até alguém dizer sim. O padrão que fica é trocar de rumo assim que percebe desalinho entre talento e caminho escolhido — a mesma lógica reapareceria, anos depois, em decisões de peso bem maior.

A segunda aposta teve custo mais alto. Depois de cinco anos na Pandora, multinacional dinamarquesa, Nohoa voltava de licença-maternidade quando o marido, Rodrigo, recebeu um investimento-anjo para a startup que tentava tirar do papel — um projeto de conectar freelancers criativos a empresas. A sócia dele não estava conseguindo se dedicar em tempo integral, e o investidor pediu alguém para dividir a cadeira. Nohoa aceitou, mas negociou a própria saída da Pandora: pediu para ser desligada, não pediu demissão, porque precisava do valor da rescisão para se organizar financeiramente antes de entrar num negócio sem salário fixo.

Trocou a estabilidade de uma multinacional por um projeto sem prolabore, com um bebê recém-nascido em casa. "Mal sabia eu, aprendi a ser financeira, gente", diz ela sobre o período. Não foi um salto no escuro — foi um risco calculado, com rede de proteção montada antes de pular.

A aposta seguinte não teve uma data marcada de início: foram dois anos de reconstrução. O negócio fundado com Rodrigo, que começou como um marketplace de freelancers criativos, virou a Creators Platform — tecnologia que organiza e mede campanhas de microcriadores em escala, hoje usada por marcas como YouTube, TikTok e L'Oréal. A mudança de modelo consumiu dois anos de investimento em tecnologia sem qualquer aporte de fundo, bancada só pela receita de prestação de serviço aos próprios clientes.

O risco era ficar sem caixa antes que a tecnologia funcionasse. Só ficou pronta quando o mercado de microcriadores amadureceu — o tipo de aposta em que não dá para saber, no meio do caminho, se vai terminar em fracasso ou em prêmio.

Terminou em prêmio: o Caboré 2024, categoria Inovação — reconhecimento que ela descreve como raro para profissionais pretos na lista de indicados. Foi nesse mesmo período que a estrutura da empresa mudou de novo. Gabriel Klein, um dos fundadores da revista Vice no Brasil e cliente da empresa numa fase anterior, entrou como sócio.

Com Klein na sociedade, Rodrigo passou a tocar produto de forma interina — área em que já tinha mais repertório — e Nohoa assumiu a cadeira de CEO, com foco na parte administrativa e de gestão do negócio. Em vez de ela e o marido tentarem cobrir todas as frentes sozinhos, trouxeram alguém de fora para preencher a lacuna.

Liderar e engajar pessoas, ela diz, é a parte mais difícil do trabalho — mais do que qualquer decisão de produto ou de mercado. Para lidar com isso, fez mentoria de liderança e um curso de programação neurolinguística com um objetivo específico: treinar a neutralidade na escuta, porque o cérebro cria viés automático diante de qualquer fala.

Contrata pelo brilho no olho, não pelo currículo pronto

O padrão de contratação de Nohoa hoje reproduz, de um jeito direto, o que ela viveu na entrevista da Pandora. Ao entrevistar candidatos para a Creators, ela diz procurar menos o currículo perfeito e mais o que chama de "brilho no olho" — sinal de que a pessoa quer aprender e vai atrás sozinha do que falta. "A gente pode despender um tempo de desenvolvimento aqui que vai valer a pena", diz. É a mesma aposta que a gerente da Pandora fez nela: contratar pelo potencial demonstrado na hora, não pela caixa de requisitos toda preenchida.

Uma coisa ficou sem resposta fechada na conversa. Ao ouvir Nohoa narrar as próprias mudanças de curso, de emprego e de carreira em sequência, o apresentador perguntou se ela se considerava uma pessoa corajosa. Antes de responder sobre coragem, ela reagiu ao padrão que via na própria história: "Eu sou taurina, né? Super estável, que não gosta de mudanças [...] Fiquei ouvindo você ler [...] e fiquei pensando: nossa, eu sou taurina, veja bem." O contraste ficou no ar — a versão que ela conta sobre si mesma, estável e resistente a mudança, não é a que aparece quando alguém lista os fatos em sequência.

A outra coisa que ficou foi o reconhecimento, ao vivo, de um papel que ela ainda estava processando. Perguntada se já se via como referência para outras mulheres pretas, respondeu sem embelezar: "Não era óbvio até eu começar a receber essas mensagens." Recebe mensagens nas redes sociais e diz que isso a lembra do tanto que a representatividade importa — mas nomeou o peso disso sem transformar em discurso pronto: "É um prazer, mas é também uma responsabilidade [...] porque é preciso cuidar das expectativas e dos sonhos das pessoas."

Uma última coisa só aparece na conversa, não em nenhum currículo: o método que ela usa sempre que precisa aprender algo novo. Lista três pessoas que podem ensinar o assunto e fala com as três — quase sempre, pelo menos uma tem tempo para ajudar. É a mesma lógica da agenda telefônica que ela rodou mais de uma vez na carreira: perguntar direto, para várias pessoas, até alguém responder que sim.

Ela já decidiu o que fazer com o espaço que ocupa: usar o acesso que teve na Pandora — aula de inglês paga pela empresa, uma CEO preta como referência a poucos metros de distância — para abrir caminho parecido para outras pessoas pretas dentro da Creators.

Onde isso termina, ela mesma admite, ainda não tem resposta pronta.

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