
Genesson Honorato
Sócio-diretor da Kuba e professor da Fundação Dom Cabral
Quando chegou à L'Oréal, Genesson Honorato já tinha sido cobrador de ônibus. Psicólogo de formação, entrou no mercado corporativo pelo ProUni e chegou a liderar inovação em RH em multinacional — passando pela L'Oréal, onde liderou competições internacionais de marketing e criou campanhas premiadas internamente, pela ThoughtWorks, conectando cultura e tecnologia em RH, e pela OLX, onde ganhou projeção como porta-voz em eventos e conferências. Hoje é sócio-diretor da Kuba, music tech brasileira, professor da Fundação Dom Cabral e colunista da Fast Company Brasil. Membro da Rede de Líderes da Fundação Lemann, defende que propósito profissional se constrói com método — não com romantismo.
Perfil Editorial
Aos nove anos, Genesson Honorato saía pelas ruas de Mascote, no interior da Bahia, com uma bandeja de alumínio no antebraço, gritando "Olha o sonho, olha o sonho." Os sonhos eram os que a mãe fritava, recheados de goiabada, canela e açúcar. Décadas depois, ele subiria a um palco de 15 mil pessoas para falar de propósito profissional — e diria, sem cerimônia, que aquela bandeja foi o primeiro motor da carreira. No meio do caminho, ficou um ano inteiro sem ir à praia, a um bar ou a um show. Por escolha.
A primeira aposta, ele já tinha feito antes dos 20 anos. Entrou em Sistemas de Informação porque "computador era o futuro" e abandonou o curso na primeira aula de programação em Pascal — levantou da carteira e foi embora. Uma bolsa do ProUni o levou depois para Psicologia, em Salvador, onde se formou em dezembro de 2010. 2011 não trouxe emprego nenhum. Sobreviveu de concursos culturais — escrevia frases para promoções e revendia os prêmios, uma TV de 42 polegadas, um iPad, um iPod. Uma professora sugeriu que ele fosse trabalhar num shopping. Ele imprimiu um único currículo, endereçado a uma única loja. Foi contratado. Meses depois, um programa de trainee da L'Oréal o levou ao Rio de Janeiro. Passou o ano inteiro sem lazer, só trabalho, até ser efetivado. O custo foi o ano em si; o que revelou foi um padrão que se repetiria depois: apostar tudo numa única frente, em vez de se espalhar por várias.
O segundo ponto de virada não veio de um convite formal — veio de um orçamento negado. A empresa recusou pagar uma consultoria para o censo de diversidade da fábrica. Genesson construiu o próprio censo com cerca de R$ 2 mil, tablets emprestados e estagiários percorrendo os três turnos. Ninguém pediu. Meses depois, repetiu a lógica na campanha "Barba, Carreira e Bigode", criada para atrair homens a um programa de estágio majoritariamente feminino: trouxe uma van de barbearia customizada de Belo Horizonte, contratou barbeiros, fechou parceria com a Estácio e respondeu pessoalmente aos comentários nas redes sociais. As inscrições masculinas subiram mais de 30%. O resultado foi um convite do então CRO da L'Oréal para migrar ao marketing, cuidando das marcas Garnier e Colorama — e, dali, passagens pela agência Ana Couto, pela ThoughtWorks e pela OLX Brasil, onde chegou a gerente sênior de inovação em RH com uma temporada em Barcelona. O custo foi deixar de ser "o cara do RH" — a etiqueta que o tinha levado até ali.
O censo que ninguém autorizou
O padrão se repete em quem observa Genesson operar de perto: ele não espera orçamento para agir. Onde faltou dinheiro, sobrou execução pessoal — ele mesmo negociou a van, ele mesmo respondeu comentário por comentário, ele mesmo levou os jovens aprendizes a conhecer o técnico Bernardinho num centro de treinamento de vôlei em Saquarema, com um orçamento de R$ 5 mil que dava para pouco mais que ônibus e lanche. Ele chama isso de "inocência corporativa" — fazer antes de pedir licença, sem calcular o risco de dar errado.
Essa mesma lógica orienta sua crítica ao employer branding, tema ao qual dedicou boa parte da carreira em RH. Ele desconfia do discurso de "aqui nós vestimos a camisa, aqui você vai florescer" quando a empresa não sustenta a promessa no dia a dia — e é direto ao dizer que pagar mais que o concorrente ainda é, na prática, a mensagem mais eficaz que uma empresa pode entregar a quem está escolhendo onde trabalhar.
O que ficou da conversa no TC não está em nenhum currículo público. Genesson contou que não se via como um homem bonito até os 30 anos de idade — e que a virada começou de dentro para fora, mudando roupa, cabelo, o jeito de ocupar espaço, antes de qualquer mudança de cargo. "Isso não foi só sobre mudar a roupa, mudar o cabelo", disse ele. "Foi sobre mudar a minha maneira de existir no mundo."
Também ficou uma confissão pouco frequente em quem vive de palco: ele toca trombone, percussão, contrabaixo e violão — nenhum deles bem o suficiente para se apresentar, disse, rindo — e cogita gravar um disco autoral mesmo sem pretensão de carreira musical, só pelo gosto de atravessar o processo. É a mesma pessoa que, aos nove anos, vendia sonhos numa bandeja e, décadas depois, entrou como sócio-diretor de inovação na Kuba, music tech que cruza tecnologia, música e cultura brasileira — depois de ajudar a reformular o modelo de negócio da empresa e investir recursos próprios nela.
A pergunta que ficou em aberto não é se ele vai lançar esse disco. É se vai apostar nele com o mesmo ano inteiro sem praia que apostou no Rio de Janeiro em 2012 — ou se, dessa vez, vai preferir manter o palco só para as palestras.
