GESTÃO
Os erros que quase me transformaram num chefe ruim
Por Felipe Ladislau, COO da PYXYS
Já tinha passado do horário de expediente quando fui até a mesa da analista e falei: "Pode parar, eu termino." Peguei de volta a tarefa que tinha passado pra ela de manhã e assumi sozinho, sem mais uma palavra sobre o que tinha acontecido ao longo do dia. Ela levantou, pegou a bolsa e saiu chorando do escritório. Eu tinha 24 anos, liderava minha primeira equipe no Itaú, e levei a noite inteira para entender que tinha acabado de dar o passo mais próximo que já dei de virar um chefe ruim.
Conhecer todos os processos da área virou motivo para não confiar em ninguém
Eu tinha me preparado para aquela cadeira. Estudei, participei das formações de liderança que o próprio banco oferecia, queria fazer certo. O problema era outro: eu conhecia cada processo da área de cor, e isso, em vez de me ajudar a formar o time, me deu a certeza equivocada de que ninguém faria tão bem quanto eu.
Esperava que cada pessoa da equipe trabalhasse exatamente do jeito que eu trabalhava. Não porque eu tivesse dito isso em voz alta, mas porque era assim que eu media se uma entrega estava boa. Entre a pressão das cobranças, a urgência dos prazos e uma agenda emendando reunião atrás de reunião, sobrava pouco tempo para treinar alguém direito ou desenhar uma delegação de verdade. Delegar virava um ato de emergência, feito sem método, não uma prática construída com intenção.
Passei a tarefa de manhã e só voltei a falar sobre ela no fim do dia
Numa dessas manhãs, passei uma demanda para uma analista pleno e entrei numa sequência de reuniões, uma atrás da outra. Na minha cabeça, era uma tarefa rápida, do tipo que eu resolveria em vinte minutos se estivesse com a agenda livre.
No meio do dia, entre um compromisso e outro, fiz um checkpoint rápido. A tarefa estava travada. Dei mais algumas instruções, mas instruções insuficientes, ditas de corredor, sem sentar de fato para entender onde ela tinha empacado. Voltei correndo para a próxima reunião.
Chegou o fim do expediente e o processo continuava parado. Foi aí que tomei a decisão que hoje reconheço como o momento em que mais cheguei perto de ser um chefe ruim: peguei a demanda de volta, fiz sozinho, e disse à analista para não tocar mais naquele processo. Sem perguntar o que tinha travado. Sem oferecer ajuda de verdade durante o dia. Só tirei a tarefa dela, no fim do expediente, na frente de quem mais estivesse por perto.
Chefe ruim não é, apenas, quem grita: é quem prioriza o resultado sobre a pessoa e não corrige a tempo
Não houve grosseria naquela cena. Não levantei a voz, não usei uma palavra mais dura do que devia. E é exatamente por isso que demorei uma noite inteira para entender o tamanho do que eu tinha feito: a maioria das listas sobre "sinais de chefe tóxico" descreve explosão de temperamento, humilhação pública, grito em reunião. Nada daquilo aconteceu ali.
O que aconteceu foi mais silencioso e, por isso, mais difícil de nomear na hora: sob pressão de prazo, eu escolhi o resultado da tarefa em vez da pessoa que estava tentando entregá-la. Tirei dela a chance de travar, pedir ajuda direito e tentar de novo. Substituí isso pela certeza de que eu, sozinho, resolveria mais rápido.
Esse é o reframe que eu precisei fazer sobre mim mesmo depois daquele dia: gestor que resolve tudo sozinho, rápido, sem precisar de ninguém, não está sendo eficiente. Está evitando o trabalho mais difícil e mais lento, que é formar alguém capaz de resolver aquilo sem você.
O custo real não apareceu na hora: apareceu depois, na confiança que ela perdeu
Na noite em que percebi o que tinha feito, o primeiro pensamento não foi sobre o processo que eu tinha assumido. Foi sobre o que aquela cena, na frente do time, ensinou a todo mundo: que travar numa tarefa difícil, sob pressão do meu ritmo, tinha como consequência ser publicamente substituída, não ajudada.
Não tive coragem, na época, de voltar e conversar com ela sobre o que realmente tinha acontecido naquele dia. O episódio ficou sem reparo direto. Isso me ensinou, mais tarde, que o dano de um erro de liderança raramente termina no momento em que ele acontece. Ele continua enquanto a pessoa afetada não souber que você reconheceu o erro.
Levei anos de liderança para encontrar o equilíbrio entre confiar, apoiar e cobrar
Reconhecer que tinha cruzado uma linha naquela noite não me transformou automaticamente num líder que delega bem. Gostaria de dizer que sim, mas seria mentira. Levei anos, liderando outras equipes depois daquela, até encontrar o equilíbrio entre confiar no time, dar o suporte que uma pessoa precisa no meio de uma tarefa difícil, e ainda assim cobrar prazo e qualidade sem soltar a régua.
Depois de mentorar mais de 30 executivos, vejo essa mesma dificuldade se repetir com frequência em quem foi promovido cedo por dominar tecnicamente a própria função. A lógica parece a mesma que eu segui aos 24 anos: se eu sei fazer melhor e mais rápido, delegar parece perda de tempo, não ganho de capacidade. É um erro fácil de justificar sob pressão de prazo, e por isso mesmo difícil de perceber enquanto está acontecendo.
O que mudou, de fato, na minha forma de liderar não foi um princípio abstrato sobre confiar nas pessoas. Foi entender que delegação é uma habilidade, não um traço de personalidade que você tem ou não tem. Como qualquer habilidade, ela exige prática, repetição, e a disposição de errar por excesso de controle algumas vezes antes de calibrar certo.
Hoje, quando revejo a forma como delego, penso menos na analista que saiu chorando naquele dia e mais em quem, no meu time atual, pode estar recebendo a mesma pressa disfarçada de urgência. A pergunta que fica dessa lembrança não é se eu já errei desse jeito: é se, da próxima vez que a pressão apertar, eu vou lembrar a tempo, ou só vou perceber depois que a pessoa já tiver ido embora.