GESTÃO
Demissão humanizada: o peso que você não pode terceirizar
Por Felipe Ladislau, COO da PYXYS
A pessoa sentada à minha frente tinha anos de casa, um fit cultural que ninguém ali questionava, e era querida por praticamente todo mundo na empresa. O problema é que ela não acompanhava mais o momento do negócio. Eu sabia disso havia um ano, tempo que passei tentando reverter o cenário com feedback, PDI, treinamento pago pela empresa. Chegamos ao fim do ano sem o resultado que o próprio plano previa. A decisão já estava tomada antes de eu entrar naquela sala. Faltava a parte que nenhum processo de RH faz por você: olhar para a pessoa e dizer, em voz alta, que ela estava sendo desligada.
O checklist de RH não carrega a decisão por você
Toda vez que procuro conteúdo sobre demissão humanizada, encontro a mesma coisa: um roteiro. Como comunicar, que canal usar, o que dizer, o que evitar dizer, como estruturar a reunião. É útil. Mas não é a parte difícil.
A parte difícil não está na técnica de comunicação. Está em quem decide assumir o peso da decisão pessoalmente, do início ao fim, em vez de terceirizar para um script, um checklist ou um comitê. Dá para seguir cada etapa recomendada por qualquer manual de RH e ainda assim conduzir um desligamento desumano, porque a pessoa que decidiu já se desconectou emocionalmente da própria decisão antes de entrar na sala.
No caso que abre este texto, o roteiro institucional eu segui à risca antes mesmo de chegar à conversa de desligamento: dei feedback periódico, desenhei um PDI, paguei treinamento. Isso não foi teatro. Foi uma tentativa real de não precisar demitir ninguém. Só que, quando o PDI não entregou o que o próprio plano previa, o roteiro institucional termina e começa a parte que nenhum manual resolve por você.
Terceirizar essa decisão não acontece só quando você delega a conversa para outra pessoa. Acontece também quando você segue o roteiro perfeito, sem errar uma etapa, mas trata aquilo como um procedimento a ser executado, não como uma escolha da qual você é o responsável direto. A diferença não aparece no que foi dito na sala. Aparece em quem, depois, continua se perguntando se fez a coisa certa, e em quem já seguiu para o próximo item da lista.
O motivo real é o que você deve à pessoa do outro lado da mesa
Na conversa de desligamento, fui transparente: agradeci o tempo de contribuição e expliquei que, apesar do esforço do último ano, não tínhamos chegado ao que o PDI havia desenhado como meta.
Tenho um princípio que sigo em todo desligamento: nunca uso esse momento para dar feedback sobre próximas oportunidades de carreira. Esse tempo já passou. Devia ter sido dado antes, quando ainda havia chance de mudar o resultado. No momento do desligamento, o que existe é uma decisão tomada e uma pessoa processando isso emocionalmente. Tentar aproveitar a reunião para orientar o futuro dela é usar um momento que não é sobre isso.
O que devo à pessoa naquela sala é o motivo real. Não um motivo suavizado, não um genérico "reestruturação", mas a razão de fato: no caso, o PDI que não chegou ao esperado. Poderia ter sido corte de despesas, redesenho de área, qualquer outra coisa: o que importa é que seja verdade. Recuperar o motivo real é uma questão de honestidade, e honestidade é a forma mais concreta de humanidade que cabe numa conversa de quinze minutos. Junto com isso, agradecer especificamente o que funcionou durante o tempo de casa e deixar as portas abertas: recomendação no LinkedIn, disposição para indicar a pessoa adiante. Isso não é gentileza performática. É reconhecer que o desligamento fecha um capítulo profissional, não apaga o que aconteceu nele.
Por que tentar suavizar o desligamento costuma piorar
Depois de mentorar mais de 30 executivos, vejo o mesmo erro se repetir de duas formas opostas.
A primeira é usar o momento do desligamento para dar feedback de carreira (o erro que descrevi acima). A segunda, mais comum ainda, é o oposto: elogiar demais para tentar amenizar o peso da conversa. "Você é excelente, isso não tem nada a ver com sua competência, é só uma questão de momento da empresa." Dito assim, sem lastro em nada concreto, isso não alivia. Cria uma dissonância cognitiva na pessoa que está sendo desligada. Se ela é tão boa quanto está sendo dito, por que está sendo desligada? A frase que deveria confortar vira mais uma pergunta sem resposta para carregar.
Humanizar um desligamento não é deixar a pessoa se sentindo bem na saída da sala. Isso raramente é possível, e tentar forçar esse resultado costuma sair pela culatra. É garantir que ela saia entendendo exatamente por que aquilo aconteceu, sem versões contraditórias para reconciliar depois.
Adiar também é uma forma de terceirizar a decisão
O caso que descrevi no início tem uma segunda camada, que só entendi depois. Adiei a decisão por mais tempo do que deveria porque tinha receio do impacto no engajamento da equipe que respondia a essa pessoa. Parecia a escolha mais cuidadosa: proteger o time de uma mudança brusca.
O que eu não estava enxergando é que o próprio gap técnico da pessoa já estava gerando confusões e retrabalhos que minavam o engajamento daquele mesmo time, todos os dias em que eu adiava. No fim, o desligamento foi melhor para todos, inclusive, ironicamente, para o engajamento que eu estava tentando proteger. Manter a pessoa no cargo estava custando, além dos atrasos nas entregas, exatamente aquilo que eu achava que estava preservando.
Isso me ensinou que adiar uma decisão difícil também é uma forma de terceirizar: não para um processo de RH, mas para o tempo. É deixar que a inércia decida por você, com a vantagem de que ninguém vai te cobrar diretamente por uma decisão que você simplesmente não tomou ainda.
O que fica depois que a sala esvazia
Nenhuma técnica de comunicação substitui a disposição de carregar uma decisão como sua. Dá para seguir cada boa prática que existe sobre como comunicar um desligamento e ainda assim ter conduzido tudo de forma desumana, se o motivo foi disfarçado, se o momento foi usado para o que não deveria, ou se a decisão foi adiada até virar inevitável.
O mesmo padrão vale além do desligamento. Toda decisão difícil de liderança, cortar um cliente, encerrar uma parceria, reverter um investimento, tem uma versão terceirizável e uma versão pessoal. A terceirizável segue o processo certo e devolve a responsabilidade para o processo. A pessoal exige que você esteja disposto a ser, de fato, quem decidiu.
A pergunta que fica não é se você sabe o roteiro certo para uma conversa de desligamento. É quanto do peso dessa decisão você está disposto a carregar pessoalmente, ou se está esperando que o processo decida por você.